Palavras... palavras
Wilson Martins
O monumental levantamento de Manif Zacharias ("Lexicologia de 'Os Sertões': o vocabulário de Euclides da Cunha". Florianópolis: Garapuvu, 2001) corrige e completa, por um lado, todos os trabalhos parciais, tópicos ou exemplificativos até agora existentes - e, quanto a isso, além de torná-los peremptos, desqualifica desde logo os que vierem a aparecer - enquanto, por outro lado, põe em evidência esta verdade elementar: o estilo literário define-se pela sintaxe e pela semântica, não pelo vocabulário.
Ora, é exatamente o que a crítica brasileira vem fazendo, a começar pelo jansenista das letras que se chamava José Veríssimo: "Pena é que conhecendo a língua, como a conhece, esforçando-se evidentemente por escrevê-la bem, possuindo reais qualidades de escritor, força, energia, eloqüência, nervo, colorido, elegância, tenha o sr. Euclides da Cunha viciado o seu estilo (...)". São observações que se referem ao estilo enquanto sintaxe, pelo simples motivo de não haver "estilo" de vocabulário, por onde José Veríssimo incidia no engano de focalização costumeiro entre os críticos.
De fato, onde estavam os "vícios" por ele apontados? Euclides "sobrecarregava" a sua linguagem "de termos técnicos, de um boleio de frase como quer que seja arrevesado, de arcaísmos e sobretudo de neologismos, de expressões obsoletas ou raras, abusando freqüentemente contra a índole da língua e contra a gramática, das formas oblíquas em 'lhe' em vez do possessivo direto, do relativo 'cujo' e, copiosamente, de verbos por ele formados", procedimentos, todos, que, se se podem justificar, "dão ao seu estilo um tom de gongorismo, de artificialidade, que certo não estava na sua intenção".
Veríssimo ficaria surpreendido se soubesse que eram essas, justamente, as intenções estilísticas de Euclides da Cunha (de estilo completamente diverso nas análises sociais e históricas), nas quais os arcaísmos, os neologismos e as palavras técnicas destinavam-se, em paradoxo aparente, a conferir maior rigor e precisão ao que desejava exprimir. Os críticos deixaram-se deslumbrar pelas exterioridades - como nos casos de Antônio Vieira, Rui Barbosa ou Guimarães Rosa - sem perceber que o vocabulário servia apenas como material de expressão, não como material de ornamentação (desleitura cometida por um crítico dos nossos dias). Seu estilo é alta e refinadamente literário, enganando os que o imaginaram "escrevendo com um cipó" ou copiando as palavras do dicionário nos punhos da camisa.
Daí transfigurar a sua matéria numa visão apocalíptica: diante de Canudos foi um profeta do Antigo Testamento amaldiçoando os pecados do mundo. Tinha a imaginação hiperbólica: "Não há, para ele, homens nem acontecimentos medíocres (...). A sua desmedida imaginação não via as coisas senão no extremo de todas as grandezas: estropiados soldados e jagunços depauperados transformam-se ao seu olhar em titãs, ou se transmudam em estátuas colossais que simbolizam e resumem as grandes virtudes da espécie: pequenos entreveros de combatentes exaustos são para ele cargas brilhantes e rítmicas de lanceiros da Índia; a Humanidade só lhe oferece exemplos de vermes rastejantes ou de tipos excepcionais, encarnações de 'heróis' celebrados por seu velho mestre Carlyle".
Ao escrever alhures essas palavras, notei a natureza adjetival do seu estilo (enquanto o vocabulário pertence ao território do substantivo): "Não somente ele tem a ciência do adjetivo, como, ainda, transforma em adjetivos todas as palavras, escolhe-as pelo potencial adjetivante que contenham; as suas imagens são sempre 'qualificativas', e as palavras raras, em que tanto se compra, não passam de outro recurso para adjetivar a frase".
Tomando o vocabulário como sinal identificador do seu estilo, os críticos o desnaturam, encarando como substantivos o que semanticamente ele "pensou" como adjetivos. Acresce que outro erro de leitura veio juntar-se ao primeiro e agravá-lo, conforme é fácil verificar no tratado de Manif Zacharias: é que as palavras raras, os arcaísmos e a nomenclatura científica só são usados quando necessário, particularmente nas duas primeiras partes, sem determinar nem o desenvolvimento da exposição, nem o ritmo da narrativa, menos ainda a sua cogência no conjunto. Empregadas com o mesmo propósito de exatidão e rigor, as palavras comuns da língua quotidiana são mais numerosas e até predominantes, como seria de esperar.
É que o vocabulário pertence à língua portuguesa, empregada por Euclides da Cunha, enquanto a sintaxe e a semântica que com ele se formam pertencem à sua linguagem de escritor, diferença que se perde quando as duas expressões são tomadas como sinônimas. É por aí que o dicionário de Manif Zacharias serve também de instrumento crítico, porque a inclusão do vocabulário tido por euclidiano no vocabulário da língua comum estabelece as perspectivas em que devemos lê-lo e compreendê-lo. Assim, por exemplo, palavras como "carnaubal" estão na fronteira entre os dois domínios, mas "cariátide", sendo expressão técnica, é também imagem hiperbólica: "Antônio Conselheiro passava os dias sobre os andaimes (...). O povo enxameando em baixo (...) estremecia muitas vezes ao vê-lo passar (...) impassível, sem um tremor no rosto bronzeado e rígido, feito uma cariátide errante sobre o edifício monstruoso".
Vê-se que não se trata de palavras, mas de idéias: o vocabulário de Euclides da Cunha é um glossário, um thesaurus de conhecimentos, um índice de civilizações, uma sinopse histórica, não só do Brasil, mas do próprio homem. Com este livro insubstituível e precioso, Manif Zacharias incorpora ao corpus crítico euclidiano o tratado que lhe faltava, e do qual os fragmentos dispersos, incoerentes e impressionistas estão disseminados por obras aliás valiosas, muitas delas igualmente fundamentais. É um acontecimento bibliográfico, irônico desmentido aos que viram nos "Sertões" um trabalho de ficção, sem perceber que imaginação científica é outra coisa.

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