Lá no Morro
de Francisco José Pereira
A manhã de fevereiro é muito quente. Das janelas abertas pendem inertes cortinas. O ar pesado tem efeitos paralisantes. Na baía, em frente, os raios de sol sobre a quietude do mar azul parecem produzir infindas explosões de cintilantes e diminutas estrelas.
O morro é cortado por estreitas transversais. Na primeira transversal, Cidinho caminha na manhã estafante. O movimento lento de seus pés no chão batido, protegidos por leves chinelos, modifica a ensolarada paisagem e desperta um sonolento gato sob a sombra de um velho abacateiro. Cidinho é jovem, em seus dezessete anos.
Há quase dois meses, no horário das doze horas, Cidinho se submete às injeções de estreptomicina, prescritas pelo tisiologista. Dona Neuza, vizinha na segunda transversal, que tem conhecimentos de enfermagem, faz-lhe as aplicações.
Dia sim, dia não, há quase dois meses, esta cena se repete na cozinha de dona Neuza, onde o calor do fogão é mais forte. Num pequeno recipiente, a seringa é escrupulosamente fervida. De uma panela sem tampa o feijão com lingüiça e toicinho, boiando na água fervescente, inunda a cozinha de um cheiro bom. Uma toalha, com manchas de almoços anteriores, cobre a mesa, onde estão dispostos pratos e talheres limpos.
Dona Neuza, de meia-idade, deve ter sido ainda mais bonita quando jovem. No rosto claro, de sorrisos alegres, seus olhos verdes são, no entanto, tristes e sérios.
Sentada em um banco ao lado do fogão, dona Neuza conversa com mansa naturalidade, enquanto a seringa é fervida. Ela fala das coisas do cotidiano e sabe contar, com doméstica graça, os incidentes rotineiros de sua prosaica vida. Cidinho, de olheiras fundas na tez pálida e febril, escuta com um certo encanto.
Enquanto fala, ali sentada, dona Neuza — seja pelo calor ou por hábito — prende a ponta do vestido com ajuda do indicador e do polegar de ambas mãos, suspendendo-a à altura dos seus joelhos e fica, dessa forma, abanando suas pernas, que se abrem e se fecham numa sensual combinação de movimentos. Os olhos negros de Cidinho não escondem seu deslumbramento.
Já esterilizada a seringa, a água destilada é introduzida no pequeno frasco, reduzindo a estreptomicina à forma líquida. Segue-se o ato de injeção e Cidinho expõe seu ombro nu à aplicação da agulha. Dona Neuza prende com a palma da mão o cotovelo de Cidinho e, com a outra, aplica a injeção num perfeito domínio de gestos. Faz-se, então, um cúmplice silêncio. Enquanto o líquido escorre lentamente da seringa para os músculos jovens, dona Neuza pressiona com delicada angústia o cotovelo de Cidinho contra seus túmidos seios, mantendo-os assim. Uma lânguida tontura envolve todo o corpo de Cidinho, enquanto fugidias mudanças de tons verdes fazem mais tristes os olhos sérios de dona Neuza.
Noite sim, noite não, há quase dois meses, se repetem os sonhos de Cidinho em delirantes viagens pelo corpo aberto de dona Neuza.
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