OS CANTARES DA ODISSEIA DO SER-NO-MUNDO
Por Lauro Junkes
O Professor de Filologia Românica, José Curi, é o mesmo contista de Juca Jacu, de Cassoga Capital Cassoga ou de Terra da Cucanha, como também é o poeta de Traze-me o Girassol e de As Palavras em Cantares. José Curi revigora sua exuberância poético-narrativa no acumular dos anos de existência. O substrato de italianidade permanece inerradicável, ao tempo em que se avoluma sua erudição clássica, seu humanismo de solidez social.
A prosa de José Curi, nos seus vários livros de contos, especialmente no último – Terra da Cucanha, assume decididamente suas raízes italianas, no vale de Rio dos Cedros, resgatando um retorno amigo ao elemento telúrico, ao amanho da terra, à apreciação da ambiência natural. Idêntica italianidade transparece no carinho com que focaliza a gente simples da sua terra natal. A poética de As Palavras em Cantares reafirma idêntica comunhão. “Fica conosco aqui” refaz o saudoso retorno ao lar, como que em “canção de exílio”, reacendendo o frescor da infância e o esplendor da natureza; o Beppin, no entanto, “não é mais um moleque”, mas um “doutor com carimbo de status”; amigos já se foram, “a casa já não existe” e apenas a lembrança substitui o inexistente. “Ao imigrante italiano” glorifica esse herói anônimo, na fome de polenta e vinho, mas com “lamentos de morte na garganta seca”, ao enfrentar a “solidão pesada do oceano Atlântico”, acariciando o sonho do Brasil, para encontrar a “Bela Santa Catarina”. O longo poema “A vaca Mimosa” desenleia os passos do “colono de escol, Bepon dei Giuseppini”, que traz da Holanda a Vaca Mimosa, festejada como prenda “bella più che più”, como “sacro troféu”, ao chegar a “Rio dos Cedros em festa” dos trentinos colonos e receber seu companheiro, o touro Roncesvalho. A natureza, porém, exige seus débitos! “O choro de um colono” faz ressoar, na surdina do sonho, “Neste país da Cucanha”, a melancólica confissão do “colono imigrante” porque, por mais que tenha trabalhado, “a triste miséria canta / bem ao redor do meu lar”.
A temática da italianidade conduz naturalmente ao cotidiano da vida, à apreensão modernista da dessublimização, para redescobrir o banal, o corriqueiro, o de cada-dia, na sua tão essencial significação. Assim “Cadeira de balanço” não se restringe a um simples móvel, porém se reveste de repositório de vivências, interligando tantos tempos. Da mesma forma, “As chaminés rurais” reconduzem ao passado italiano rural; infelizmente já “deixaram de fumar”, como outros hábitos se esfumaram. “Cena bucólica”, um soneto em redondilhas populares, enfoca o mais lídimo cotidiano no cheiro da terra. Ali até mesmo “O sapo gorducho”, no banal realismo, sabe gozar “os pingos da chuva”. No tema acolhido de bucolismo brotado da alma, animiza mesmo “A cerca de arame farpado”, a quem dirige enternecedoras palavras de profunda revivência. E o cotidiano corriqueiro retorna em “Goleiro” e “Bola” de futebol: tu “tens a faculdade de socializar / no âmbito festivo, uma doida alegria”. Enfim, mesmo a indesejável “A mosca caseira” faz o poeta celebrar a “familiar mosquita acinzentada”, no seu reles cotidiano, após aludir a muitos poetas clássicos romanos que cantaram insetos e animais nem tão nobres; conclui, entretanto, em prisma diverso: “eu peço aos céus que o meu país sem igual / não seja entregue às moscas qual pasto frugal”. Em outro universo, “A rendeira ilhoa”, em veste de soneto, valoriza o jargão manezês e o manejo dos bilros da tradição açoriana. As raízes autênticas sempre prezam a singeleza do cotidiano.
Sua terra lembra as raízes vitais, a família, que o poeta reverencia. Veja-se o poema “Filho”: Ah! Se todas as relações mãe-filho fossem assim, como seria o mundo se os filhos fossem grandes no amor. Pode então “Um ser ignoto vibra” incorporar essa relação de amor, que constitui prodígio fantástico. O poema “Coração” contém poderosa reflexão/indagação sobre a contribuição do coração para o ser e o vir-a-ser. “A alma da casa” – poema narrativo dedicado à própria mãe e que evoca a “alma” que era a mãe Josephina – traça, em contexto rural, o surgir e o florir do amor entre os pais, no calor de apaixonados. “Vovô pescando” capta o perpassar da poesia por tudo: o bom vovô está “pescando sua paciência / e o rio da vida manso vai passando...” Quando a esposa Loli surgiu, “tudo o amor recolheu” para plasmá-la. E a ternura feliz e plenificante se corporifica ao contemplar a filhinha – “Rosa de Amor”. Desse lar, dessa lareira de amor, desse convívio de intimidades que se doam, brotam poemas como “Perguntas de amor” mais reflexões de ternura do que indagações sobre esse sentimento fundamental que é o amor. Mesmo na “febre do cansaço”, na “oração sentida” ou “na página da vida”, é o amor que torna “Eu e você”, no “curso dos anos”, sempre “convalescentes”. Nos poemas deste conjunto, bem como nos demais, sob prismas diversos, o poeta José Curi delineia uma autêntica “odisseia do amor no mundo moderno”.
Também desse lar de fé e de oração brotam os voos místicos do poeta, que sobrepuja o aqui-e-agora em busca de horizontes de “Potencialização”, para vivenciar “diálogo consigo”, para energizar “a minha mente” e “desentulhar a alma”. “A palavra” resgata a Palavra/Verbo, a origem de toda a comunicação, no seu valor máximo, com lídimo fundamento teológico. “Música”, essa “música de luzes e de cores”, vinda da “orquestra” ou do “universo orquestra”, é harmonia que produz “delírios de eternidade”. Projeta-se, então, “O jardim” como um sonho/visão de sabor místico. E pode o poeta celebrar o místico Bernardo Claraval, um professor autêntico de sabedoria da vida: “Vinha dele, de um Deus”. O próprio poeta, no vislumbre da transcendência, lança suas “Indagações”: “Conheço-me a mim mesmo quase ao pôr-do-sol”? “Que sei de mim? Que sinto? Que desejo?” Os poemas da seção IV retomam com insistência essa visão de vida. Para além do material, “Amai co’amor amai” constitui uma apóstrofe serena e de fé confiante no Mestre de Nazaré que, permanentemente, para todos disponibiliza sua “Boa-Nova”. E “À Maria”, após um prólogo em que o estro do poeta não encontra estímulo nas deusas do Olimpo, expande sua filial veneração à “Senhora minha, e tua, e nossa Mãe de Deus!”
O poeta vibra na lareira de ternura dos seus, mas vibra também com seus irmãos poetas. À semelhança de Rilke, “A um jovem poeta”, abeberando-se na tradição poética ocidental, fala aos que são ou julgam ser poetas: modismos são vernizes fugazes; indispensáveis são “suor e trabalho”; o alicerce está no povo, com sua palavra/língua; mas, sobretudo, a beleza é “companheira sem igual”. Como qualquer poeta, esse “moderno pensador” sente-se totalmente cercado pela “agradável tristeza da interrogação”. Poeta não é, pois, apenas sonhador, mas também pensador, alongando seu olhar sobre o universo e a vida. “A minha maçã” faz, metonimicamente, questionar por que a maçã cai pela gravidade, mas “a terna lua dos namorados” “não se despenca do azul?” Ainda no reino da física, “O acelerador de Hádrons (ou Colisor) reflete sobre o grãozinho original de tudo, no distante Big Bang. “Dueto” faz expandir-se a cultura clássica do conhecedor das epopeias – da Grécia, Portugal e Itália – para ressaltar a figura do poeta, estonteado ante o “dueto da morte e da vida”, o “dueto do sim e do não”, o dueto da pena e da lança. E revelando vigorosas ressonâncias de Tagore, o “Semeador” propõe ao poeta o fundamental enfoque humanitário.
Ser poeta não se restringe, pois, ao sonho, ao amor lírico, ao misticismo espiritualista. O poeta José Curi não logra conter, nos poemas deste livro, seu profundo senso humanitário, sua angústia diante dos desvirtuamentos humanos, dos descaminhos da política, da desconsideração pelo ser essencial de cada pessoa. Indaga-se ele: como posso “Ser feliz” se “três bilhões de humanos seres vivem / num nível bem abaixo da miséria infame?” E nesse quadro permeado pelo amor e sua felicidade, “posso eu separar a beleza da flor / da sua fragilidade e seu fenecimento?” Ou então, “Será que vale a pena” viver como vivemos? E sobrevêm “Resmungos de um velho poeta”, dilacerado entre o passado e o presente. Em tal contexto, impõem-se “Solidões”, apostrafando-se o vate: “Poeta, as amáveis saudações sumiram”, porque as criaturas modernas vivem suas solidões “fechadas no automóvel qual funéreo carro”. A solidão dá lugar até a um “De profundis”, em momento denso e interiorizante: “não há vida”. Nesse universo em que a vida está defraudada, tornar-se-á ainda encontrável o equilíbrio entre o originário e o atual, a riqueza e a pobreza, o espiritual e o material, onde se ocultará o “Mérito”? E a condição humana se apresenta totalmente questionável: por único que seja o homem no universo, “tu soberbo humano és feito de sucata...” Entretanto, depauperada a essência “Do homem”, constitui ele ainda a maravilha da criação, capaz de reconhecer o seu Deus e glorificá-lo no seu amor-poder: “fazer vir à vida um ser que não existia / é milagre maior que uma ressurreição”. A melancólica trajetória do humano vem sintetizada em “Olim Angelus, nunc SUS!”: com respaldo no outrora mito clássico, o agora se resume em desilusão: “O erro e a mentira / o ódio, a fuga, a dor, o ópio, a cocaína...”
A própria linguagem do poeta, “velho Beppi”, dá vez a termos menos nobres, de calão popular, quando focaliza degenerescências do agir humano. “O bom Jacu” deixa expandirem-se a ironia, o sarcasmo e a crítica: se tu crês em tantas imbecilidades, “considera-te um homem, bom Jacu,/ De imbecis há milhares como tu”. E o estribilho é incansável, na ironia acusatória. Em “A gravata que fede”, do próprio nível de linguagem transparece o vilipêndio da honra “nos corredores / onde fermenta a lei”: “A lei e o poder engravatados / Do povo ignaro a consciência chupam” e arrastam a sociedade no “engodo-promessa”, sob a “efígie de Jesus dolarizada”. Outro poema de evidente crítica à hipocrisia e às injustiças sociais é “Bobi et eius vita”, também com a linguagem baixando de nobre modelo literário para o sarcasmo, a gíria, o nível popular sem ternura. Vitupera-se o “O tripé mundial” que sufoca o humano: a globalização, a euforia capitalista e o terrorismo do homem-bomba. E o “O trio Brasil” não permite vendar nossos olhos: entre ironias e jocosidades, para onde vai nosso Brasil? “Desafinação” ironiza este “bom Brasil”: como é triste ver uma criança “na esquina do medo / sem afeto, sem mãe, sem amor, sem brinquedo”. “Salmo das eleições tupiniquins” aponta chagas cruentas: na “fome do poder”, avultam a “fétida calúnia” e a lisonjeira “ave de rapina”, enquanto os fornicadores “a alma ao diabo vendem”, porque “poder é despotismo e anarquia oficial”.
Ser poeta é viver como um ser humano, entre os humanos seres, arrostando seus anseios e angústias, envergando-se ao peso das imbecilidades, dos vilipêndios, das degenerescências que afetam a humanidade. Também o poeta experimenta “O apagar da vida”: “os anos já vividos os possui a morte, / e ela os carimbou em nosso passaporte”, impondo-se a indagação “Pra onde vamos nós?” Reflexões densas, sem soluções mágicas, perpassam os versos, buscando respostas que se volatilizam: por acaso “a vida é morte, não um bem, um dano”? Conclui, porém, confiante, que, diante da morte “fatal, libertadora”, “o pobre ser nest’hora /vê num raio de luz de Deus o meigo olhar!” Sem maiores complacências, o poeta de “A velha idade” reflete sobre os efeitos da inexorável passagem do tempo, na velhice – “uma quase morte” – do professor de latim, comentando, com “cheiro de piada” a afirmação de que “Esta é a melhor idade”.
Professor universitário que sabe valorizar as singelezas do cotidiano, forjado na ternura dos laços familiares, poeta irmão de poetas, esse italiano Beppin de Rio dos Cedros soube assumir os ares diversos da capital catarinense ao celebrar longamente a bela e mágica “Florianópolis”, com os encantos da sua pródiga natureza – “o garapuvu (que) se touca em cores/ e o flamboyant soberbo chora flores” –, sua “lusa língua pura”, suas tradições folclóricas, o “ritmo sensual de ilhéus sambas”, sua história desde os carijós e Dias Velho, “dos Açores a ternura / vestida de bondade”, o “Barriga-Verde Regimento”; se “em flor te transformaste”, felizmente ainda “não é lá uma americana urbe louca”.
As Palavras em Cantares reorganizam toda uma simbologia poética, em sólida imagística, de caráter sócio-filosófico-místico, amalgamando com maestria o reflexivo e o comunicativo. O halo lírico envolve tanto o místico espiritualizado como o banal cotidiano e ainda o vilipêndio apocalíptico aos desvirtuamentos político-sociais.
Formalmente, os poemas deste volume se conglomeram em quatro conjuntos, segundo as intenções do autor. Na leitura que procedi dos mesmos, constatei afigurar-se múltipla temática, de caráter imbricante, com recorrências que solidificam o universo lírico-social e espiritual do autor. O poeta não teme abrir seu universo interior, consolidado em sucessivas décadas de vivência no magistério superior, na vida familiar, na consciência humanitário-social, nas raízes da italianidade, na leitura dos clássicos.
Com o título Cantares, resgata a original essência poética, o canto, a celebração, a cadência artística, o anúncio, a sedução, o cadenciamento, o encanto. Entretanto, a Palavra, naquela sólida concepção de Drummond de Andrade, é arma de combate, é instrumento de luta e reivindicação, mesmo que o poeta/Lutador esteja convencido de que “Lutar com palavras / é a luta mais vã” e, ainda que “o ciclo do dia” se conclua, “o inútil duelo / jamais se resolve”. O aparente paradoxo entre Palavras e Cantares marca vigorosamente o evoluir da poética deste conjunto, ao mesmo tempo que a Palavra faça alusão ao Verbo das origens, criação e comunicação em sua mais lídima essência. O poema encanta e desafia. O poema aspira ao místico, sem esquecer as dores humanas. O poema convida ao sublime, porém denuncia o vilipêndio humano. Ao cantar amores e dores, a poética assume a mais sólida contextualização do homem no mundo. Eis a missão do poeta. |