O Fueiro
João Nicolau Carvalho
O Sargento Januário, um italiano de Tubarão, foi destacado para efetuar reconhecimento além de um bolsão de terra paraguaio, após o rio, para onde o grosso da tropa guarani havia se retirado. Os homens do Sargento estavam deitados às margens do curso de água, escondidos na vegetação. Haviam-no atravessado de madrugada. O Sargento mandara Lucindo rastear o terreno, após uma elevação de terra macegosa, a uns quinhentos metros do rio. Lucindo, preto livre, cidadão do Império, velho no batismo de fogo, fora comandante de uns irregulares farroupilhas.
— Lucindo está demorando.
— Possivelmente farejou alguma coisa, Sargento.
— Lá vem ele! – murmurou Francisconi, um homenzarrão alourado, também descendente de italianos, da região de Laguna.
Um vulto negro arrastava-se rápido por entre as touceiras. E, repentinamente, diante deles, surgiu Lucindo.
— Então?
— Nada, Sargento. Nem um sinal de tropas. Depois da lombada há umas choças. Me pareceram abandonadas.
— E nenhum sinal de guaranis?
— Nenhum – confirmou o rasteador. – Mas devem estar se reunindo nalgum lugar, por essas bandas.
— Com certeza; são muito patriotas.
— Oh, sim – e valentes. Mas agora devem estar cuidando de fuzilar o comandante; costumam fazer isso quando são derrotados.
— É possível alcançar as choupanas sem sermos pressentidos? – indagou o Sargento.
— Sim, senhor. Depois daquela lombada existe uma plantação de milho – disse Lucindo, apontando para a elevação de terra macegosa; — nos servirá de cobertura.
— Então vamos.
Ora rastejando, ora correndo, atravessaram a macega e penetraram no milharal. O milharal terminava num largo descampado, onde o grupo deparou com oito choças rodeando uma laranjeira.
— Nenhum sinal de vida.
— Quer que dê uma olhada? – indagou Lucindo.
— Está bem.
Lucindo arrastou-se por entre as choupanas, desaparecendo pela entrada de uma, nos fundos. Os companheiros ouviram um cachorro a latir; depois, um gemido.
Januário ordenou aos homens preparassem as armas. Mas Lucindo retornou, as calças respingadas de sangue.
— Que foi que houve?
— Tudo vazio, Sargento. Encontrei um cachorro; sangrei o animal.
— Este negro é um tinhoso – asseverou Francisconi.
Penetraram nas choças e revistaram-nas uma por uma. Haviam sido abandonadas de pouco, os moradores apressados. Os soldados estavam para se retirar, quando ouviram choro de criança.
— É dali, Sargento Januário.
Januário fez um sinal aos homens. Acercou-se da laranjeira. Olhou para cima, a arma apontada para o alto. Disse para os soldados sacudirem a árvore. Despencaram duas paraguaias e uma criança de colo, amarrada às costas de uma das mulheres.
Januário perguntou-lhes alguma coisa em português. As mulheres olhavam amedrontadas para os homens. Nada responderam. Lucindo tentou uma mistura de espanhol e português da fronteira gaúcha. Mas elas apenas sacudiram a cabeça, negativas, os olhos fixos nos soldados. A rapariga mais jovem, de uns treze anos, tinha somente uma tanga a cobrir a parte inferior do corpo e Januário ficou a olhá-la, demoradamente. A noite se aproximava. Os homens olhavam ora para as mulheres, ora para o Sargento.
— Creio que poderemos pernoitar aqui, não, Lucindo?
— Sim, senhor; acho que não haverá perigo.
Os homens continuaram a olhar para as mulheres e para o Comandante.
Januário pegou a guarani mais jovem pelos cabelos e disse:
— Esta é minha.
Os soldados fixaram-se na outra mulher. A criança chorava. Um dos homens fez-lhe festa, cantarolando baixinho:
Atirei um cravo n’água,
De mimoso foi ao fundo.
Os peixinhos responderam:
Viva Dom Pedro II.
A criança continuou a chorar. A mulher tirou-a do berço amarrado à moda índia e a embalançou. Mas a criança pros-seguiu no choro. Ela se sentou no chão e puxou um seio do interior do vestido de algodão, colocando-o na boca do filho. Ela também era bastante jovem e os soldados dela não afastavam os olhares. A criança sugava o seio e não chorava mais.
— Deixem que termine de dar leite à criança – ordenou Januário. — Depois podem ficar com ela. O mais velho primeiro.
O soldado mais velho era Lucindo e os demais, que eram brancos, resmungaram. Lucindo cuspiu no chão, brusco:
— Eu não quero!
Sentou-se sob a laranjeira e começou a picar fumo.
— Bem, estou precisando de mulher, mesmo que seja índia – gracejou o mais velho dos brancos.
— Lucindo fica de guarda no primeiro quarto de horas – continuou Januário, sempre segurando a mais jovem pelos cabelos. A rapariga não se debatia, uma calma indecifrável nas faces amendoadas. — Pedro, aguarde que ela termine de dar de mamar à criança.
Carregou a rapariga para uma das choupanas e trancou a porta de esteira. Madrugada, os soldados, satisfeitos de mulher, resolveram acordar o Sargento. Chamaram-no. Não houve resposta. Lucindo empurrou as treliças e penetrou na choupana. O corpo estava estendido no chão, em cima de um cobertor. A tanga acharam-na num canto; a rapariga desaparecera. A entrada dos fundos estava aberta, e num fueiro de carro, espetada, a cabeça de Januário.
Os paraguaios atacaram pouco depois.
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