0s Tarecos
Francisco José Pereira

A banheira cobria-se de densa espuma, produzida pela mãe que agitava a água com sabonete perfumado às mãos. O menino se encantava, vendo a água agitada cobrir-se assim de branca espuma. Queria compartilhar aqueles gestos mágicos da mãe. Esta, rindo alegre com o encanto do filho, entregava-lhe o sabonete e faziam, juntos, marola na banheira, fazendo crescer a massa de espuma.

Depois era o banho. De joelhos ao lado da banheira, a mãe esfregava o menino. Esfregava-o lentamente, com doçura, fazendo-lhe cócegas e ambos riam muito - o menino gostava do riso da mãe. Mas o melhor era o final do banho. A mãe lhe cobria o corpo com a toalha felpuda e macia, provocando nele um calorzinho bom. Logo o apertava junto a ela e, enquanto o enxugava, beijava-o com ávido carinho.

"Pronto, tá cheirozinho" - o menino já vestido, nos pés os chinelos pequenos. Após banho ligeiro, era ela então quem se perfumava - para igualmente esperar o marido.

O menino também gostava da voz da mãe. Ela passava o dia inteiro falando com ele, dizendo coisas que ele sabia e coisas que ele não sabia. Mas isso dava-lhe igual, pois era sempre agradável ouvi-la.

A mãe falava-lhe de seus problemas domésticos, dos quais ele nada entendia ou tinha falsa idéia. Pedia-lhe, ansiosa, para lembrá-la de ir ao supermercado, lendo-lhe em voz alta a lista dos mantimentos que pretendia adquirir. "Não falta nada, falta?" - e ela mesma respondia indecisa. "E roupas, meu Deus, quando vou ter tempo de renovar meu carnê na loja? Teu pai tá quase sem cueca, sabias?" O menino não sabia o que era Deus, tampouco o que era carnê, e somente supunha saber, muito vagamente, o que fosse cueca. "Oh, falta anotar na lista margarina e aveia" - lembrava-se ela mais tarde, quando o menino, já montando o cavalinho de pau, galopava atrás de espantadas galinhas no quintal.

Que diferença do pai. Este, de natural calado, preferia o riso discreto, limitado a movimentos curtos dos lábios. Fazia-lhe carinhos, muito à sua maneira, como aqueles de todos os dias ao entardecer. Era quando, de volta a casa, saudava o menino e - num meigo e cotidiano ritual - desmanchava-lhe os cabelos penteados, às vezes ainda úmidos do banho recente. E também ria, naquele seu jeito discreto de rir, quando à mesa, no jantar, a mãe lhe contava, com detalhes, as diabruras, assim dizia ela, praticadas pelo menino durante o dia. O pai, no seu sorriso contido, piscava-lhe o olho - conivente e solidário. O menino, agradecido, imitava-lhe o sorriso contido, enquanto a mãe simulava alheamento.

Mas nem sempre era assim. Havia dias em que o pai, ao entardecer, chegava rindo, surpreendentemente alto e sonoro, à maneira da mãe - aliás, fora assim que o pai chegara hoje. Afagava a cabeça do menino, desmanchando-lhe os cabelos, como sempre o fazia, e então o tomava pelas axilas, jogava-o para o alto e o amparava em seus braços fortes. Era somente nessas ocasiões que o pai lhe beijava as faces muitas e muitas vezes - como também as beijara hoje - deixando nelas uma agradável sensação provocada pelos espinhos da barba crescida.

"Quanto já bebeu do salário?" - e aí era a mãe que não ria.

Nesses dias o pai trazia-lhe também um saquinho cheio de tarecos que o menino adorava. Os tarecos eram pequenos, tinham a forma de uma metade de bola de gude, porém mais achatadinhos, feitos de ovos e açúcar, daí sua coloração amarelada. Bastava que o menino os comprimisse com a língua contra o palato para que os tarecos se desmanchassem, enchendo-lhe a boca de uma saborosa massinha doce.

Mas só ele ganhava, como ganhou hoje, o saquinho cheio de tarecos. A mãe, não. Talvez por isso, à mesa, no jantar, a mãe não houvesse rido nem um pouquinho e tampouco falado ao pai das suas diabruras durante o dia. Apenas o pai ria muito, alto e sozinho e, como não sabia rir assim, deixava cair o prato que se quebrava no chão. Ou derramava a xícara, sujando de café a toalha limpinha.

Foi hoje, pela primeira vez, que o menino percebeu, à mesa, o olhar zangado nos olhos tristes e calados da mãe dirigidos ao pai. O menino, surpreso, se assustou.

E foi deitar triste. Tão triste que não dormiu. E ficou muito tempo a pensar. E como também não estava acostumado a pensar quando devia dormir, também não dormia. Foi assim que, finalmente, se convenceu de que a mãe ficara triste porque ele não lhe oferecera seus tarecos. E, com o coraçãozinho doendo de pena da mãe, levantou-se da cama no escuro, como nunca fizera antes, dirigindo-se ao quarto dos pais.

Próximo à porta ouviu os pedidos abafados da mãe: mais, mais, mais. O menino perturbou-se. Logo escutou a mãe rindo devagarinho, tão devagarinho como se fosse para ela mesmo, de um jeito que jamais ele escutara, e pedia mais, mais, mais. Ah!...entendeu então. Era o pai que lhe dava tarecos às escondidas dele.

E o menino, confortado, voltou à cama e dormiu.